Dormir pouco ou muito foi associado a mais doença do coração em 474.684 pessoas
Resposta curta
Numa meta-análise de 15 estudos com 474.684 pessoas, dormir pouco foi associado a 48% mais risco de doença coronária. Dormir muito foi associado a mais risco de coronária, AVC e doença cardiovascular total. Outra meta-análise, com 21 estudos, associou a insônia a risco 2,1 vezes maior de depressão.
Tipo de evidência: duas meta-análises de estudos de coorte: 15 estudos com 474.684 pessoas sobre sono e coração, e 21 estudos sobre insônia e depressão
O que o estudo fez
A gente reuniu duas meta-análises. Meta-análise junta vários estudos sobre a mesma pergunta e refaz a conta com todos.
A primeira é de Cappuccio e colegas, publicada no European Heart Journal em 2011, sobre duração do sono e doenças do coração. Entraram 15 estudos, ou 24 amostras, com 474.684 pessoas acompanhadas de 6,9 a 25 anos.
Só valiam estudos prospectivos, que acompanham as pessoas para a frente no tempo, com mais de três anos de seguimento. O sono foi medido por questionário, e os casos de doença vieram de registros e atestados.
A segunda é de Baglioni e colegas, no Journal of Affective Disorders, também em 2011. Ela reuniu 21 estudos longitudinais sobre insônia e depressão.
O que encontraram
Dormir pouco foi associado a mais risco de doença coronária, o entupimento das artérias do coração, com risco relativo de 1,48. O risco relativo mostra quantas vezes o risco é maior que o do grupo de comparação, então isso quer dizer 48% mais risco, com margem de erro entre 1,22 e 1,80.
Para AVC, o dado ficou no limite: risco relativo de 1,15, ou 15% mais. Para doença cardiovascular total, 1,03, sem associação.
Dormir muito também foi associado a mais risco: 1,38 para doença coronária, 1,65 para AVC e 1,41 para doença cardiovascular total.
Na segunda meta-análise, a insônia foi associada a risco 2,1 vezes maior de depressão, em 21 estudos. Esse é o número do modelo mais conservador dos autores.
Os autores do trabalho do coração concluem que sono curto e sono longo são preditores, ou marcadores, de problemas cardiovasculares.
Como isso funciona no corpo
Nenhum dos dois trabalhos testou como o sono mexe com o coração ou com o humor. O que eles mostram é um padrão estatístico em muitas pessoas.
Os próprios autores falam em preditor ou marcador, termos que indicam um sinal de risco, e não um motivo comprovado.
Os estudos medem coisas diferentes: o do coração olha as horas dormidas, e o da depressão olha a insônia, que é a dificuldade de pegar no sono ou de continuar dormindo.
Por isso não dá para juntar os dois resultados numa só frase sobre o sono. Cada um responde a uma pergunta.
O que o estudo não prova
Não prova que dormir pouco ou muito afeta o coração. São estudos que observaram pessoas, e o sono pode ser tanto um sinal de doença já em curso quanto um fator de risco.
O sono foi medido por questionário, e essa medida é menos precisa do que um aparelho.
O resultado para AVC no sono curto ficou no limite, e para doença cardiovascular total não houve associação, então a mensagem de que dormir pouco prejudica o coração é mais fraca do que parece.
O sono longo apareceu associado a risco em todos os desfechos, o que sugere que ele pode ser marcador de outras condições, mas isso é interpretação e os estudos não a testaram.
Na depressão, os autores avisam que nem todos os estudos consideraram outras variáveis. Eles defendem que tratar a insônia cedo pode ajudar, mas esse efeito não foi testado nos estudos reunidos.
Os dois trabalhos são de 2011.
O que fazer com isso
Insônia que dura semanas e noites curtas que viram rotina merecem uma conversa com um médico, e não só um chá. Os dados mostram associação, e não um alvo de horas de sono que valha para todo mundo.
Perguntas frequentes
Dormir pouco faz mal ao coração?
Numa meta-análise de 15 estudos, dormir pouco foi associado a 48% mais risco de doença coronária. É associação, e os autores falam em preditor ou marcador.
Dormir muito também é ruim?
O sono longo foi associado a mais risco de doença coronária, AVC e doença cardiovascular total na mesma meta-análise.
Insônia leva à depressão?
Em 21 estudos, a insônia foi associada a risco 2,1 vezes maior de depressão. É associação, e não prova de que uma leve à outra.
Fonte primária
Cappuccio et al., “Sleep duration predicts cardiovascular outcomes: a systematic review and meta-analysis of prospective studies”. European Heart Journal, 2011.
